Conversas Improváveis

Como de costume, antes de iniciar o ensaio, o maestro da uns recados aos músicos. 

Bem, é preciso saber que, no dia anterior, houvera um concerto com um músico de fora na cidade. Um flautista, amigo do maestro, que cordialmente aceitou o convite para tocar na pequena cidade do interior. O que não tinha nada a ver com os R$50 que seria cobrado por ingresso, obviamente. 

Mas como fazer as pessoas pagarem R$50 para um concerto de música clássica? Obrigando-os parecia um método eficiente, pelo menos para o maestro, que exigiu a presença de todos os membros da orquestra e da escola de música. 

Um concerto numa noite fria de sexta feira, com o ingresso a R$50 com um músico desconhecido e com a sombra da obrigação como incentivo para comparecer. 

Seria hipocrisia culpar os músicos que não foram. 

– Gostaria de deixar registrada a decepção com o concerto de ontem. – Dizia o maestro. – Muitos de vocês não souberam aproveitar a maravilhosa oportunidade de ver o grande flautista Amorim ontem à noite. 

Agora, o momento crítico, em que o sermão poderia se tornar inspirador ou ofensivo. Infelizmente, o maestro não sabia ser inspirador. 

– Aqui, nessa pequena cidade do interior, vocês não têm uma grande agenda de concertos. Nem uma pequena agenda de concertos. Se morassem na capital, onde são cerca de três concertos majestosos por semana, seria justificável. Se fossem grandes músicos, tão reconhecidos como eu ou o grande flautista Amorim, seria justificável. Vocês precisam encarar a realidade de que não há aqui quem saiba fazer música, e parar de desprezar as enriquecedoras oportunidades que lhes aparecem. 

A continuação, algo que não aconteceu, mas bem que deveria. 

A violinista, justamente aquela novata, deixa escapar uma risada de escárnio pelo nariz, alta o bastante para ser escutada por todos. Inclusive pelo maestro. 

– Você tem algo a dizer? – Pergunta o maestro, surpreso e debochado, dizendo a palavra “você” com sonoro desdém. 

– Na verdade – diz a violinista -, tenho uma pergunta.

O maestro se remexe na cadeira, em silêncio desconfortável. Alguns músicos continuam não prestando atenção, mas muitos estão olhando para a violinista.

Algo que não se fazia na orquestra, pelo menos naquela orquestra, era responder ao maestro. Se escutavam as ofensas e comentários de menosprezo em silêncio contemplativo, meio em vergonha e meio em tentativas de ignorar o maestro por completo. 

– Pois bem. – A violinista continua, sem esperar pelo consencimento do maestro por continuar sua fala. – Gostaria de saber o que o maestro faz aqui. 

– Como é? – O maestro replica, dando uma risada surpresa. – Estou regendo essa orquestra, não está claro?

– Não, não parece claro. – Diz a violinista. – O que me parece claro é o seu desprezo por todos os músicos voluntários aqui, como se fosse superior a eles. 

Não há mais músicos distraídos. Todos observam a violinista, chocados.

– Você vem aqui, ensaio após ensaio, desdenhando e diminuindo a capacidade dos músicos da sua própria orquestra. Essa orquestra que é formada de músicos amadores e abrem mão de suas horas de lazer para ouvir que não são capazes de fazer música. Você fica se vangloriando de tocar com os melhores na sua preciosa capital. Imagino se eu sou a única que se pergunta… Se essa capital é tão superior, porque você se sujeita a reger essa orquestra? 

O maestro se mantém mudo, com a face esbranquiçando. Os músicos estão com os olhos arregalados. 

A violinista sente que seu coração vai sair pela boca, de tão nervosa, mas não se importa. 

– Talvez… – Ela quebra o silêncio sepucral que a sala de ensaios se tornou. – Talvez seja porque essa orquestra amadora de uma pequena cidade do interior seja a única disposta a pagar pela sua incompetente regência. 

Enquanto todos ainda estão sem reação, a violinista se levanta e, com o violino em uma mão e o estojo em outra, vai embora. 

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