Universidade

Há quase seis (!) anos, eu entrava na sala 205 da Faculdade de Artes e Comunicação. Tava constrangida em puxar papo com as pessoas da minha turma, que eu só conhecia pelo Orkut. Sentei perto da janela, mas não na parede, lá pela quarta ou quinta mesa. A professora chegou e se apresentou, e pediu para nos apresentarmos. Meu coração bateu acelerado. Quem era eu? Quem era eu ali?

Olhei pra janela e pensei “eu estou no lugar errado” e comecei a formular mentalmente o que eu falaria.

Eu era a Mariana. De Carazinho, tinha 17 anos. Ainda não estava acostumada a acordar tão cedo pra pegar o ônibus. E tinha escolhido Jornalismo porque… Bem, eu não queria dizer em voz alta, mas era porque eu sonhava em ser escritora. Não lembro o que eu disse, devo ter dito que achava uma profissão bonita e me identificava com a possibilidade de conhecer realidades diferentes.

Depois de todos apresentados, a professora fez seu pequeno discurso.

Todos nós ali tínhamos alguma coisa em comum. Todos nós, provavelmente, gostávamos de ler, gostávamos de escrever, mas tinha mais alguma coisa. Jornalista não ganha muito dinheiro, e todos já sabíamos disso. Se nós estávamos ali, não era para fazer fortuna… Estávamos ali porque queríamos mudar o mundo.

Esse pequeno discurso dado no meu primeiro dia em territórios acadêmicos me marcou. Me marcou quando eu mudei de Jornalismo pra Publicidade, mas eu achei que era uma maneira diferente de mudar o mundo. Claro, mais comercial, mais vendida, mas com possibilidades criativas mais abrangentes.

Semestre passado eu fiz meu TCC. (Sim, eu sei que deveria estar formada, mas não estou, falta-me uma matéria. Enfim.) Antes disso, eu fiz o meu projeto de TCC, onde eu apresento o que eu pretendo fazer e a Universidade diz se é uma pesquisa viável ou não.

E não foi até recentemente, quando eu lembrei desse discurso sobre mudar o mundo, que eu entendi o que me incomoda.

No que deveria ser o último primeiro dia de aula, outro professor não pediu que nos apresentássemos. Ele já nos conhecia, trabalhou com a gente em três disciplinas antes dessa. Pediu que contássemos o que pretendíamos pesquisar. Mas, antes, fez seu próprio pequeno discurso incentivador.

Nós éramos formandos, e todo formando é idealista. Queríamos abraçar o mundo, tínhamos temas lindos, mas impraticáveis. Não, nós não íamos conseguir mudar o mundo, nem o Brasil. Dificilmente iríamos conseguir mudar o Rio Grande do Sul. Céus, já seria um puta trabalho se tentássemos mudar nossas cidades. Precisávamos nos manter realistas e abandonar nossa ambições, em prol de um trabalho executável.

Em algum momento, nesses anos de faculdade, o sistema conseguiu. Conseguiu esmagar nossos espíritos e nos domesticar. E o que chegamos ali para fazer, o que eles mesmos nos disseram que era o queríamos (e realmente era), eles tiraram de nós e classificaram como impossível.

Eu me prendi a uma pequena chama de esperança. Quando apresentei meu projeto, um professor se empolgou muito com o meu tema. “Se tu seguir nessa pesquisa, tu pode conseguir mudar o mercado!”, ele disse, quase levantando da cadeira.

E foi isso, na verdade, que me levou a continuar minha pesquisa. O mercado não é o mundo, mas se eu conseguisse mudar alguma coisa… Entende?

Hoje eu encontrei a minha cópia do TCC, que eu apresentei já faz alguns meses. Eu não mudei o mercado, e dificilmente vou mudar, eu sei disso… Mas a esperança que eu tinha enquanto escrevia…

Parecia ser o último fio que me liga à Mariana, de Carazinho, 17 anos, que queria mudar o mundo.

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