A Tríade Distópica

Há algum tempo, li um post da Fran no Garotas Geeks sobre um livro que eu adoro. Fiquei com saudades do antigo Vida de Leitora, onde a minha proposta era basicamente resenhar livros e filmes. Coloquei na cabeça que ia falar sobre a Grande Tríade Distópica um dia desses. E hoje é um dia tão bom quanto qualquer outro.

Distopia, pra começar, é o contrário de utopia. Então, num cenário distópico, nós temos um mundo caótico e opressor. Bem, o conceito fica claro quando você lê algum livro distópico, mas o dicionário diz o seguinte:

Distopia Local imaginário, circunstância hipotética, em que se vive situações desesperadoras, com excesso de opressão ou de perda; antiutopia.
Quaisquer demonstrações ou definições de uma associação social futura, definida por circunstâncias de vida intoleráveis, cujo propósito seria analisar de maneira crítica as características da sociedade atual; além de ridicularizar utopias, chamando atenção para seus males; antiutopia.

Aí nós temos três obras clássicas em cenários de distopia que eu considero leituras obrigatórias e chamo carinhosamente de Tríade Distópica.

A primeira delas é um tantinho especial para os brasileiros, a meu ver, por causa de um certo reality show popular. 1984 foi escrita por George Orwell e conta a história de uma sociedade que vive em uma guerra mundial e é vigiada 24 horas por dia por uma entidade, representada pelo governante e pai da ‘revolução’, o Grande Irmão. É, meus queridos, foi daí que surgiu o termo Big Brother. Depois de ler o livro, minha visão sobre o reality show até mudou, e passei a sentir dó dos participantes. De qualquer forma, em 1984, a opressão dos personagens é tão grande e suas vidas são tão controladas, que Winston, o personagem principal, corre o maior risco imaginável ao encontrar um canto no seu quarto onde não é filmado e começar a escrever um diário que seria a prova do mais atroz ato de traição na sociedade… Ele está crimepensando.

Achei um pouco difícil ler o livro, porque ele transcreve trechos do diário do Winston, que tem uma escrita infantil e gramaticalmente dolorosa. Isso é proposital e genial, mas trava um pouco a leitura. A visão do livro é uma sociedade onde as pessoas são fracas e covardes, dominadas pelo medo, deixando de lado o senso crítico e a capacidade de pensar. É também uma crítica a sistemas ditatoriais disfarçados de comunistas, eu acredito, e mostra como a mente das pessoas trabalha para mentir para elas mesmas, por uma série de motivos.

O segundo livro da Tríade é Admirável Mundo Novo, do autor Aldous Huxley, e foi dele que a Fran falou. A sociedade retratada é hedonista, rejeitando tudo o que pode comprometer o prazer, consumindo uma droga para combater qualquer tipo de infelicidade. As pessoas são criadas em proveta, geneticamente projetadas para pertencerem a determinadas castas. Castas mais altas, maior QI e mais privilégios. Quando crianças, elas passam por um treinamento onde são psicologicamente condicionadas a gostar do que a sua casta deve gostar. A história acontece quando Bernard Marx, um membro da casta mais alta com um perfil mais questionador que as demais pessoas, resolve visitar uma tribo de humanos que resistiram com suas crenças e culturas misturadas e encontra o selvagem entusiasta de Shakespeare, John, que não consegue entender essa sociedade.

Esse livro me assusta, porque as vezes acho que a humanidade está indo por esse caminho. Acho genial. As pessoas precisam estar sempre felizes, no seu auge físico e ‘perfeitas’, e essa é a opressão. Não há mais momentos de tristeza, o que me faz pensar que a felicidade não pode ser verdadeira.

O último seria Fahrenheit 451, do Ray Bradbury. É meu favorito, então desculpem pela tietagem. As pessoas vivem num mundo consideravelmente igual ao nosso, a não ser pelo fato de livros serem terminantemente proibidos. Claro, existem manuais e livros escolares para as pessoas aprenderem alguma coisa, mas livros reflexivos e críticos ou ficcionais são exterminados por bombeiros, pessoas com um tanque de querosene nas costas e um estoque interminável de fósforos. Sem livros, a capacidade das pessoas raciocinarem por conta própria está comprometida. Elas são inteiramente dominadas pela mídia, vivendo para as “famílias”, que são as pessoas que vivem nas paredes-tela-de-TV. A história do livro começa quando o bombeiro Montag conhece uma menina muito culta, Clarisse. Ele desconfia que Clarisse tenha uma biblioteca em casa, mas gosta da menina e não a denuncia, e passa a construir um relacionamento de amizade com a menina. Até que Clarisse desaparece, e Montag não é exatamente um destruidor de livros.

Adoro esse livro, mas não o tenho. Preciso imensamente, mas quero comprar uma edição boa, não qualquer uma. É poético além da conta, e estou necessitada de lê-lo mais uma ou vinte vezes para conseguir absorver tudo o que tem lá. A sociedade da história é burra, e só sabe seguir instruções, com raríssimas excessões. Existe uma história inventada para justificar a queima dos livros (e dos leitores), mas a verdade é que os livros tornam as pessoas críticas, e pessoas críticas são infelizes por verem falhas. Então, sem livros, sem críticas, sem tristeza. E o livro tem um vilão fantástico. Me encantou além do que qualquer livro até hoje, mas eu tenho certeza que ainda não entendi tudo.

Poderia ter sido interessante falar de cada um desses livros em posts separados, mas… Bem, não quis.

Aí estão os três livros que você deve ler em 2015.

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2 pensamentos sobre “A Tríade Distópica

    • Falei do Huxley, que é perversamente assustador, e genial.
      Mas chamar o Bradbury de soft é meio raso. Ele é assustador, revoltante, crítico e, principalmente, poético. Na minha humilde opinião, ele merece estar na Tríade.

Não me siga, eu também estou perdida.

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