Pessoas que enxergam por trás das máscaras

Elas existem.

Imagina o pior dia da sua vida. Não no sentido ‘meu cachorro morreu’ ou ‘fui atropelado’ ou ‘minha avó morreu’, mas um dia daqueles em que tudo dá errado, em que você não entende o mundo e se acha a pior pessoa do universo. Agora imagina uma sequência de cento e cinquenta dias assim.

Eu já tenho minha cara blasé, aquela cara sem expressão que ninguém consegue ver o que eu estou sentindo. Depois desses 150 dias, minha cara de peixe morto já tinha se tornado uma máscara de ferro, mais inalterável do que nunca. Eu andava na rua com o rosto erguido e as feições caídas.

Depois de um tempo, você não espera mais que as pessoas notem… não espera que um estranho bem intencionado lhe sorria e diga “bom dia!” com honestidade, sem um pingo de sarcasmo. Você já convenceu a si mesmo que é invisível, e as outras pessoas concordam com você.

Então eu estava caminhando, atravessando uma ponte. Com o peso do mundo em meus ombros e a expressão vazia de quem está vazio. Só querendo chegar no meu quarto de hotel barato pra chorar até os olhos caírem (apesar de eu já ter tido uma crise de choro há algumas horas, na rua mesmo), mas me obrigando a ver o que a cidade tinha a me oferecer. Aí eu escuto um “psst” do outro lado da ponte e olho na direção.

“Deus te ama, sabia?”

Foi tudo o que ele disse. E foi tudo que precisou pra eu abrir o berreiro logo ali. Era o dia 3 de dezembro e ele disse que eu lembraria pra sempre daquele dia como o dia em que eu fiz as pazes com deus. Me deu um abraço, o primeiro abraço que eu recebia em 150 dias e disse que tudo acontecia por uma razão. Que ele estava indo para uma reunião em Sydney que havia sido adiada, e só tinha sido adiada pra que ele pudesse me encontrar na rua e me dizer isso. Ele me disse que não precisava saber o motivo do meu choro, mas que sabia que tudo ia ficar bem. Perguntou se eu acreditava em deus.

Por um segundo, eu não soube o que responder… Mas aí disse que sim, que acreditava. Disse porque não queria que ele ficasse duas horas tentando me converter pra religião dele, porque não queria que ele ficasse triste por eu não acreditar… Mas também disse porque, apesar de tudo, eu acho que acredito.

Ele pegou nas minhas mãos e fez uma oração por mim e perguntou se eu queria tomar um café e conversar. Eu não podia, precisava pegar um voo na madrugada do outro dia, mas agradeci. Agradeci demais. Ou eu só pensei em agradecer, não sei direito.

O nome dele era Don. Ele enxergou por trás da minha máscara. E eu nunca vou esquecer o dia 3 de dezembro.

Anúncios

Não me siga, eu também estou perdida.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s