Como minha vida entrou em hiatus

Aí me ligaram, convidando pra ir no café que a gente sempre se encontra. Topei. Me arrumei, colocando uma bota de cano alto porque tava chovendo. Fui buscar a chave, cortando caminho pelo pátio, que tem a calçada lisa.

Dei um pulinho pra subir o degrau pra entrar em casa. A ponta do pé ficou no capacho, o calcanhar na calçada lisa. A boa, por si só, já é bem lisa e resbala. Eu penso “porra, vou ter que levantar do chão, que saco” e me estatelo.

Mas eu me dou conta que tem alguma coisa errado. Péra… Pés não dobram nessa direção. E que barulho é esse? Ah, sou eu gritando. Porra, isso dói. Dói muito. Mais do que qualquer outra coisa que eu possa pensar. Nem dor de parto deve doer tanto, mas eu não teria como saber… Já tô gritando faz um tempinho, acho que todo mundo já escutou. Coitados dos vizinhos. Será que não vai vir ninguém me ajudar?

Aí aparece todo mundo. Meu pai, minha mãe, minha irmã, meu cunhado, meu cachorro… Todo mundo mesmo. Eu quero muito desmaiar, porque a dor é demais e eu não quero sentir. Quero acordar no hospital, com um gesso fresquinho e branco na minha perna.

Ou acordar, pro caso de ser mais um daqueles sonhos bizarros.

Alguém me levanta, acho que foi o meu cunhado, e em seguida mandam eu me sentar. Tenho medo, mas surge uma cadeira atrás de mim, e eu sento. Só pra deixar claro, eu não consigo enxergar nada, minha visão está toda embaçada com a dor.

Outro alguém tira a bota do meu pé, que incha de uma forma absurda. Parece que eu tenho um segundo joelho na canela.

De alguma forma, eu entro no carro, vou pro hospital, sento numa cadeira de rodas e faço uma dose de analgésico na veia e um raio-x no pé. Quebrado, obviamente.

O médico põe o pé no lugar. Não dói tanto, mas é uma sensação gostosa estranho, como estralar um dedo. Quero que ele puxe mais, porque parece que não estralou tudo que precisava, mas ele não puxa. Que pena. Mas ele coloca uma tala, que tá quentinha, e diminui a dor consideravelmente.

Aí aquela palavra que me gela. Cirurgia.

Só que não dá pra fazer cirurgia na hora, porque o pé fica muito inchado. Tenho que esperar duas semanas pra fazer a operação, que vai colocar um (ou três) pino no meu osso (tíbia? fíbula?) que se moveu 6,6 milímitros.

Nada de gesso, só aquelas botas imobilizadoras (R$134 na farmácia do hospital). Nada de apoiar o pé. Nada de deixar o pé por mais de 10 minutos abaixo da linha da cintura. Nada de viajar, nem pra Curitiba nem pra Nova York. Nada de ir pra aula, só pra fazer prova no final do mês, na pior das hipóteses. Nada de dirigir. Nada de cozinhar (porque tem que ficar em pé pra cozinhar). Nada de lavar louça, de buscar água pra mim mesma, de sair, de fazer yoga, de dar comida pros cachorros ou pro gato, nada de nada.

Graças a Deus eu posso tomar banho.

E foi assim que a minha vida entrou em hiatus. Por uns dois meses, de acordo com o médico.

Se passaram três dias. E eu já estou de saco cheio.

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Um pensamento sobre “Como minha vida entrou em hiatus

  1. Ai, Mari! :(((( Que dor, meu deus. Nunca quebrei nada, nem sei como é, mas sei que deve ser terrível. To aqui torcendo pra que tudo acabe logo e teu pé fique bem de novo!
    Beijo. <3

Não me siga, eu também estou perdida.

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