Mais um round

Há muito tempo, uma certa pessoinha me incentivou a ler Pollyanna.

Eleanor Porter escreveu o livro em 1913, e é chato que é o escambau. A menina, Pollyanna, tem uns onze anos e um hábito irritante: sempre ver o lado bom das coisas. Sempre. E eu digo SEMPRE. O pai dela era um pastor e ensinou isso para ela porque, antes dela ser irritante por isso, ela era irritante porque ficava emburrada quando acontecia alguma coisa ruim. A mãe morreu no parto e, alguns anos depois, o pai dela morre e ela vai morar com a tia, miss Polly, que não está muito feliz em ter que cuidar de uma menininha irritante e acaba deixando a menina meio de lado. Mas Pollyanna é tão nova quanto irritante, e as pessoas não tem coragem de dizer para ela que as vezes coisas ruins acontecem sem ter lado bom, e ela acaba contagiando as pessoas com essa energia jovem e irritante. Até que acontece a reviravolta e ela quebra a coluna e não pode mais andar. A Pollyanna entra em crise, porque não consegue ver o lado bom disso por algumas páginas, até que finalmente se conforma e acha alguma razão. Para salvar o dia, um médico encontra um tratamento alternativo e Pollyanna vai para uma clínica, passar por horas de fisioterapia dolorosa para poder voltar a andar. E a menina continua irritante, vendo o lado bom da fisio dolorosa: voltar a andar.

Na real, eu odiei o livro. Achei mal escrito, personagens bobas e simplista demais. Desculpa, Eleanor, mas você não foi uma boa escritora.

Sem falar que a história… A história é ridícula! A menina tem aquela ilusão infantil de que as coisas acontecem por um motivo e passamos o livro inteiro pensando que ela vai crescer, mas isso não acontece! E, no final, quando se espera que tenha alguma lição dramática e trágica, uma reviravolta bobagenta para ter um típico final feliz.

Aí, um dia, me chamaram de Pollyanna. Como assim? Eu sou rabugenta, eu não vejo o lado bom das coisas!… Mas eu sempre dou um jeito de animar as pessoas que, por algum motivo, estão na merda.

Então eu percebi que é mais que isso. É aquela coisa de resiliência que a professora Miriê falou nas aulas de Atendimento. É se manter positivo quando ninguém mais consegue, não porque você acredite que tudo vai dar certo ou que as coisas estão bem. Mas as pessoas precisam acreditar que alguém vê a luz no fim do túnel, mesmo que ela não exista. Como no filme “O Primeiro Mentiroso”, em que ele escolhe continuar mentindo, porque faz com que todo mundo se sinta bem.

No episódio 1×07 de Scrubs, My Super Ego, tem uma história parecida, onde o personagem Nick Murdock fala o tempo inteiro “não tem problema” e arruma uma solução. Até surtar porque encontrou uma coisa que tinha problema sim, e era impossível de ser corrigida.

Me sinto mais Nick Murdock que Pollyanna. Passei tanto tempo dizendo pra mim mesma e para os outros que não tinha problema e, agora… Bem, tem problema sim, e eu não tenho ideia de como fazer para arrumar. O que me levou a ficar encolhida em posição fetal, balançando e chorando embaixo das escadas do Sacred Hart, pedindo para sair. Pode me chamar de 02.

Como o Nick, eu coloco meu rabinho no meio das pernas e passo a tocha para outro, que saiba lidar com desilusões melhor que eu.

Tenho que segurar essa tocha por mais duas semanas. Duas semanas e aí me livro desse peso e volto para casa.

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2 pensamentos sobre “Mais um round

  1. Li apenas o início dessa obra, apesar de ter ouvido falar um bocado – e ainda é bastante vendido. A história também não me convenceu. Todo mundo é muito inocente, ninguém tem um desviosinho sequer de caráter. Nível de conto de fadas fake. Para mim não dá.
    Abraços.

  2. Nem sei o que comentar, Mari. Tô compartilhando da sua dor – tô sentindo como se ela fosse minha. Mas agora estou bem mais tranquila, porque sei que você está de volta. Toda essa turbulência um dia irá fazer sentido, eu tenho certeza. Confie nisso também, tá? Amo-te! Espero que seus familiares e amigos consigam lhe dar o conforto que eu fui impedida de dar fisicamente, graças à distância, mas dou todos os dias em pensamento. Fique bem logo, doidinha! <3

Não me siga, eu também estou perdida.

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