Queros

Eu sempre fui obcecada por malas. Não qualquer tipo de mala, mas malas pequenas e organizadas. Fascinada com a ideia de que tudo que você tem ou é pode caber dentro de uma ou, no máximo, duas malas e uma sacola de mão.

Não é surpresa nenhuma que eu adoro viajar, mas a parte que eu mais gosto é arrumar as malas. Pensar em todas as possibilidades e lugares e coisas que você possa precisar. Adoro chegar em algum lugar novo com a sensação de que tenho tudo que eu preciso.

Ultimamente, tenho estado obcecada com a ideia de ‘casa’. No sentido home, não house. Meu kit de costura de viagem, meus frascos em miniatura de shampoo e até meu lápis de olho… Tudo em tamanho mini, para viagem. É meio estranho imaginar que você faz uma viagem de um ano em que fica no mesmo lugar, então essas coisas parecem meio irrelevantes aqui. Até porque o shampoo se foi há muito tempo, a linha preta já acabou e acho que o meu lápis não dura mais duas apontadas. O tempo se foi e a viagem deveria ter acabado, deixando lugar para casa, mas eu continuo aqui.

É difícil fazer da 49 Daley Rd. a minha casa quando eu percebo que ela não é feita para ser uma casa. Se fosse, meu quarto teria a beliche com escrivaninha e o sofá que eu imagino que seria perfeito. Sejamos sinceros, se fosse para ser uma casa (lar, se preferir), teria um banheiro para 4 pessoas no máximo, não 30. (não que eu tenha problema com isso, o banheiro é absurdamente limpo e só topei com pessoas lá umas três vezes)

Encaremos os fatos. É um dorm, um alojamento, um lugar onde estudantes rebeldes que acabaram de sair de casa deixam as coisas enquanto estão em festas e/ou nas aulas (muito Hollywood na minha cabeça, produção?) para no break e/ou nas férias voltar para a casa dos pais, dormir até meio dia, acordar e ter o café da manhã (ou almoço) magicamente prontos. Alguns deles voltam para o quarto mais tarde e, também magicamente, a cama está arrumada e as roupas limpas.

Não, não está saindo como eu queria. Não é o fato de ter que lavar roupa, arrumar a cama ou cozinhar que me incomoda. É o fato de que a máquina não é minha, a cama não é minha e o fogão não é meu. Caí naquela armadilha de perder 60% da minha renda, que já não é nenhuma Brastemp das rendas, em aluguel.

Pois é, meus caros perdidos, em algum lugar desses 12 metros quadrados eu me dei conta que eu não sou ninguém. Credo, até essa tal chamada ‘renda’ não é minha, sejamos honestos, já que foi alguma terrível falha no sistema que me conseguiu essa bolsa. Durante essa epifania eu também me dei conta que eu quero muitas coisas.

Quero um emprego. Com remuneração financeira, mesmo que minúscula ou mínima. Quero aquele gostinho que estou fazendo por merecer, nem que sejam piruetas por migalhas. Sem falar em todos os perks, os benefícios de ter um emprego (como engajamento social e rotina… é, quem diria?). Se pudesse ser com os meus amigos seria perfeito. Se pudesse ser com pessoas que eu faria amizade seria bom. Mas, como eu disse mais cedo, hoje, para um amigo… Begers can’t be choosers, ou ‘cavalo dado não se olha os dentes’.

Quero meu carro. Okay, eu nunca tive um carro para chamar de meu, então eu deveria dizer que eu “quero um carro”. É divertido pegar o ônibus e até as vezes se perder e ficar rodando por lugares desconhecidos quando se está na linha errada, mas quando você só quer ir no mercado e voltar, um carro é uma puta (perdoem o trocadilho) mão na roda.

Quero um banheiro. Com uma banheira. Como eu disse, não me incomoda o fato de ter que usar um banheiro compartilhado. Mesmo. At all. Mas justamente por ter que dividí-lo, eu considero o banheiro privativo como conquista. Talvez uma mera elevação de classe D para C, mas, ainda assim, uma conquista de incalculável importância para minha pessoa.

Quero segurança. Talvez não exatamente segurança, não é exatamente de policiamento que eu sinto falta, mas eu quero algum tipo de garantia de que eu posso comprar uma coisa aleatória sem precisar ficar me preocupando em como vou fazer para transportá-la daqui alguns meses.

Quero um abraço. É, minha cara Vanessa Bittencourt, minha cara que compartilha minhas restrições abraçatárias, é uma das coisas que faz (bastante) falta. Mas continuam as mesmas restrições, precisa ser de uma pessoa importante pra mim e sob as circunstâncias certas, nada leviano.

Quero relevância no que eu estudo. Demorei dois anos para me apaixonar pela Comunicação Social da forma que eu me apaixonei e me tiraram isso, então me sinto no direito de exigir de volta! E, NÃO, Marketing não substitui Publicidade. (até porque quando o professor falou de publicidade hoje na aula de marketing, ele falou que essa era responsabilidade das agências então não precisávamos nos preocupar muito, mas como fazer quando essa é a parte que mais te encanta?)

E por mais que a distância esteja foda e a saudade me rasgue por dentro e me mate um pouquinho a cada dia (escola AnaLu de drama), meus amigos e minha família não estão entre as coisas que eu quero desesperadamente. Quer dizer, eu quero sim! Vide o abraço, mas… Eu já tenho eles. Eles já estão me dando todo o apoio que eu poderia pedir, e carinho e amor e tudo mais. O que vier aí na frente é por minha conta, estando eu em Canberra, Nova York ou Carazinho, e nenhum deles poderia me dar mais do que já está me dando agora. Mesmo com a distância.

O que já é uma puta evolução para mim, considerando que tudo que eu queria nos primeiros dias era colo da minha mãe e cafuné do meu pai.

Eu digo, nesses 12 metros quadrados aqui aconteceu bastante coisa.

E para aqueles que me ouviram ficar choramingando e reclamando nessas últimas 12 semanas, notem que ‘voltar’ também não está nas coisas que eu (desesperadamente) quero. Obrigada pela paciência de vocês.

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2 pensamentos sobre “Queros

  1. Ah meu Deus, achei que minha escola era só de ciúmes, não de drama também! Eu tenho certeza de que ia ficar cheia de quero queros fora de casa também. Mas eu achei incrível seu amor por fazer malas, porque eu absolutamente DETESTO. Quando eu for viajar vou pedir pra você fazer as minhas. HAHAHA

  2. Sou o contrário de você, não gosto de fazer as malas. Talvez porque uma frase da Lygia Fagundes Telles sempre venha a martelar em minha cabeça: “desertar significa coragem. Também ficar”.
    Quanto ao emprego, vai por mim, procura uma livraria. A gente se diverte em só seis horinhas e não é preciso muito para entrar lá não: basta amar, e entregar o teu currículo no balcão de serviços.
    Beijão, espero que tudo se resolva.

Não me siga, eu também estou perdida.

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