Mais um

Um desabafo. Mais um sobre feminismo, desculpa.
 
Dou aulas de inglês para crianças e adolescentes. Enquanto coisas incríveis acontecem, coisas chatas matam a esperança na humanidade.
 
Exemplos.
 
Perto do Dia das Mães, um aluno menino estava reclamando de ter que usar saia numa apresentação, indignado. Eis que uma colega dele, que parecia estar dormindo na sala, levanta a cabeça e diz “Realmente, a sua sexualidade é tão frágil que pode ruir se você usar uma saia”. E ainda deu pra falar de Marie Curie na aula, o que fez as meninas saírem saltitando de alegria e os meninos com aquela cara de pensativos. Foi um dia legal.
 
Mas hoje, no Dia do Desafio, fiz uma atividade que envolvia corrida. Dividi eles em dois grupos. Eis que, depois de umas três rodadas, um aluno grita “Como assim, a gente tá perdendo? O nosso time tem mais guris que o time deles, a gente tem que ganhar!” e eu engoli seco. A menina no time dele, no entanto, não deixou barato. “Cala a boca, idiota, se tu é machista desse jeito, troca de escola, que eu não quero estudar contigo!” Tive vontade de aplaudir.
 
Só que, né. Eu fui tentar dar lição de moral. Depois de terminar a atividade, conversei um pouquinho com eles e perguntei o que aquilo queria dizer. “Homens são melhores em esportes”. Não sou nenhuma estudiosa do feminismo, então não tive muitos recursos pra falar com ele. Contei da Mia Coutinho, uma powerlifter de 1,60m que ergue 300 kg, e recebi o argumento de que ela era uma exceção. Okay.
 
“Me diz, teacher, uma invenção que tenha sido feita por mulheres”
 
E aí eu quero bater com minha cabeça na parede, porque não de uma resposta digna.
 
Eu disse “Que tal o Raio X? Que tal a ambulância? A geladeira e o computador?” e ele ficou quieto.
 
Deveria ter dito “E o wi-fi? E o colete a prova de balas? E o aquecedor central? E a cerveja? E a máquina de fazer sorvetes? E a máquina de lavar louça? E o escorredor de arroz? E o bote salva vidas? E o primeiro software de computadores? E todas as mulheres que inventaram alguma coisa e tiveram que colocar no nome dos maridos?”
 
E todas as forças do meu corpo estão reunidas em não pegar o celular e mandar um whatsapp para esse aluno listando todas as invenções que eu posso descobrir que tenham sido feitas por mulheres.
Melhor seria mandar no grupo da turma. E conseguir mais uma lista de mulheres que são melhores que homens nos esportes. E, no fim, escrever “Então corra como uma menina e faça ciência como uma menina. Assim, dá pra gente mudar o mundo”.
Mas sou contida.
Ou idiota.
Ainda não tenho certeza.
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A Mandioca do Feminismo

Faz algum tempo que eu estou evitando fazer esse textão em específico.

Há dois anos, eu estava conversando com uns amigos na faculdade. Entre casos e histórias, um deles estava contando de um caso muito engraçado que aconteceu na cidade dele. Ele narrou o seguinte, dando muita risada.

“Cara, na minha cidade tem essa guria. Ela é muito puta. Ela dá pra todo mundo. Aí um dia, ela marcou de se encontrar com dois cara no matinho lá, pra dar pros dois ao mesmo tempo. Só que os caras foram zoar com a cara dela, e foram em cinco. Meu, no outro dia, ela tava no hospital com uma mandioca enfiada lá!” E dava risada. Muita risada. E eu fiquei desconfortável. Quer dizer, a ideia de qualquer pessoa ter uma mandioca enfiada na vagina não parece engraçada.

“Mas… Ela queria?” Eu perguntei, séria.

“Que?” Ele enxugou as lágrimas de riso e me olhou confuso.

“Quer dizer… Ela queria ter transado com os cinco caras? Ela queria ter usado a mandioca?”

“Ela foi parar no hospital com uma mandioca na xota!” Ele repetiu, tentando rir, e confuso demais por eu não estar dando risada. Depois de alguns segundos, ele me perguntou. “Você é feminista?”

Passou um mini vídeo na minha cabeça. Feministas escandalosas andando de peitos de fora na marcha das vadias. Diferença salarial de 30% no Brasil. Estupros coletivos na Índia (e, aparentemente, em Erebango) onde a mulher é a culpada. O cara que passou a mão na minha bunda enquanto eu esperava o sinal de trânsito abrir. Mutilação genital. A eterna discussão “feminismo” vs “anti-sexismo”.

Nunca tinha me identificado com o feminismo. Não gostava do ativismo explícito, da raiva das mulheres contra os homens, do extremismo. Mas, porra, eu ser contra um caso em que a menina foi estuprada por cinco caras e uma mandioca me faz ser feminista? Então tá.

“Sim”, eu disse, pela primeira vez pra essa pergunta.

Ele me olhou com uma cara assustada.

O cara nunca mais conversou comigo no intervalo. Cumprimentava de longe, meio assustado, e continuava contando histórias engraçadas para os amigos.

Aquela vontade

Tenho várias turmas ótimas. Mesmo, são todas incríveis de maneiras estranhamente parecidas. 

Meus alunos mais novos tem 12 anos. É uma turminha de teen, pre adolescentes. 

E eu tenho uma vontade enorme só de conversar com eles. Contar histórias e coisas.

Por exemplo, tem uma aula sobre arte. Quero contar pra eles quem foi Jaqueline Dupre e como ela é a maior violoncelista de todos os tempos, mas que parou de tocar com 28 anos por causa de esclerose múltipla. Quero contar sobre o urinol de Duchamp e como ele rompeu com os padrões tradicionais de arte. Quero explicar que funk é sim uma forma de arte. Gravar na cabeça deles que não se julga arte como boa ou ruim. Que o objetivo da arte não é nos acalantar, mas nós inquietar e causar desconforto. Que hominídeos antigos só são considerados evoluídos quando começam a ter resquícios de materiais decorados, sem função sobre estética. Mostrar Banksy e explicar porque o cara é genial. 

A próxima unidade é sobre dinheiro. Quero falar pra eles como acontece a inflação. Contar a história das tulipas da Holanda e de onde vem a expressão salário. Mostrar a pirâmide de Maslow, e fazer com que eles entendam a diferença entre necessidade e desejo. Trazer uma coleção de moedas de diferentes lugares do mundo e fazer com que eles adivinhem de onde elas são. Explicar a noção de custo, e os custos não monetários que são pagos por todo tipo de produto. 

No fim, quero trabalhar minha vaidade intelectual e parecer inteligente. Mas quero ver eles saindo por aí exibindo tudo que podem ter aprendido comigo. 

Tenho sérios problemas.